Você conhece o enredo das Crônicas de Nárnia. Quatro crianças fogem de uma guerra, se refugiam numa casa de campo, abrem um velho guarda-roupa, empurram os casacos de pele pendurados lá dentro e, sem querer, vão parar num mundo gelado de faunos, feiticeiras e um leão sábio.
C. S. Lewis, autor cristão, escreveu a saga como aventura para jovens, mas ela também já foi lida como alegoria espiritual que representa criação, queda, sacrifício e redenção.
Recentemente descobri um novo significado para essa obra. E ele se conecta, profundamente, com o meu amado Morro do Pai Inácio.
A descoberta veio de uma leitura. Folheando Montanhas da Mente, de Robert Macfarlane, um livro inteiro dedicado à nossa fascinação pelos lugares altos, encontrei uma frase que me parou: “Ir às montanhas”, escreve ele, “é como empurrar casacos de pele e chegar a Nárnia”.
Foi uma epifania.
As reflexões do escritor britânico vão perfeitamente ao encontro do que eu sinto em relação ao Pai Inácio.

A ida ao morro parece só uma brincadeira. Você acha que vai viver uma pequena aventura, ver a paisagem, guardar umas fotos e ter um relato para contar. Mas não é isso. Quer dizer: não é só isso.
Lá em cima, a noção de tempo se altera. Os sentidos falham: a audição não funciona bem, o frio anestesia o tato, a voz sai distante e insignificante quando tentamos falar. Só a visão permanece acurada – isso quando a luz do Sol não cria uma miragem.
Diante dos nossos olhos, as fendas das rochas parecem revelar pequenos mundos e ecossistemas escondidos há milhares de anos. E a visão do alto revela uma cartografia inesperada: árvores viram tapetes, estradas viram lâminas finas e pessoas se tornam invisíveis.
Tudo isso é, nas palavras de Macfarlane, a experiência mais próxima que um humano pode ter de passar para outro mundo.
O que se sente no alto é, como ele também escreveu, quase sempre incomunicável. Não tem jeito. É preciso ir lá para saber.
E descer é desconcertante. Assim como as crianças de Nárnia, a gente volta esperando encontrar tudo mudado. Um curto período no alto basta para nos deixar mal-acostumados. Talvez seja por isso que eu goste tanto de visitar o meu gigante de pedra. Ou seria melhor dizer o meu guarda-roupa mágico?
Te espero lá em cima um dia: para um café, para uma conversa e, sobretudo, para viver aquilo que não pode ser dito.
Um abraço chapadeiro,
Lucas da Chapada