{"id":337,"date":"2025-11-02T09:50:15","date_gmt":"2025-11-02T12:50:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.emporiochapadadiamantina.com.br\/?p=337"},"modified":"2025-11-02T09:52:47","modified_gmt":"2025-11-02T12:52:47","slug":"a-morte-a-chapada-diamantina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.emporiochapadadiamantina.com.br\/index.php\/2025\/11\/02\/a-morte-a-chapada-diamantina\/","title":{"rendered":"A morte e a Chapada Diamantina"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><em>Uma reflex\u00e3o sobre a leveza que a regi\u00e3o nos traz para os momentos de luto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Morte n\u00e3o se supera.<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, enquanto produzia um v\u00eddeo para o meu canal, me deparei com essa afirma\u00e7\u00e3o. Ela veio de um grande observador das rela\u00e7\u00f5es humanas: Manoel Carlos. O famoso autor de TV diz que n\u00e3o entende o que significa a tal supera\u00e7\u00e3o, apregoada por muitos. \u201cSeria esquecer quem se foi?\u201d, questiona o novelista.<\/p>\n\n\n\n<p>Concordo com o veterano dramaturgo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu nunca superei uma morte. Nem mesmo a daqueles desconhecidos que fotografei durante anos. Volta e meia, me pego pensando em cada par de olhos macilentos e pupilas dilatadas que me encaravam pelas lentes da c\u00e2mera da pol\u00edcia t\u00e9cnica (e t\u00e9trica). Para o Estado, os olhares viravam arquivos; para mim, se tornavam mem\u00f3rias soturnas e constantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o veio a mudan\u00e7a para a Chapada Diamantina. E constatei de novo que morte n\u00e3o se supera. Mas \u00e9 poss\u00edvel, sim, torn\u00e1-la mais suport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta terra m\u00e1gica, a natureza me ensinou a pintar a finitude e as rupturas com cores mais brandas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua geografia \u00e9 como um mundo paralelo que me alivia e me ajuda a vislumbrar o fim e as perdas com mais leveza.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Flores que n\u00e3o morrem<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Sempre-viva. Preste bastante aten\u00e7\u00e3o neste substantivo composto. Lindo, simples, profundo. Representa bem o que essa planta abundante na Chapada&nbsp; \u00e9: uma flor que n\u00e3o perece mesmo depois de colhida. Nem a morte pode destruir sua beleza, sua fun\u00e7\u00e3o, sua hist\u00f3ria. A sempre-viva \u00e9 como uma alma imortal. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mortos sempre lembrados<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2 de novembro, desde o s\u00e9culo 13, \u00e9 muito comum a visita\u00e7\u00e3o a cemit\u00e9rios. Na Chapada Diamantina, por\u00e9m, h\u00e1 uma necr\u00f3pole que est\u00e1 aberta o ano todo e recebe visitas diariamente: o Cemit\u00e9rio Bizantino de Mucug\u00ea. Passeios entre t\u00famulos s\u00e3o incomuns no Brasil fora do Dia de Finados (n\u00e3o \u00e0 toa, poucos monumentos funer\u00e1rios s\u00e3o tombados pelo Iphan). Mas os harmoniosos jazigos brancos da encosta da Serra do Sincor\u00e1 s\u00e3o um convite constante para relembrar os que partiram e enxergar a morte com beleza, rever\u00eancia e muita hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fiz um v\u00eddeo inteiro mergulhando nessa tem\u00e1tica:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O CEMIT\u00c9RIO BIZANTINO de MUCUG\u00ca\u2502Lucas da Chapada\" width=\"1080\" height=\"608\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VZJVig1Zll4?start=136&#038;feature=oembed\"  allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sem medo da escurid\u00e3o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Cavernas j\u00e1 foram muito utilizadas como tumbas pelos nossos antepassados. A Chapada, no entanto, nos convida a reinterpretar as fendas na rocha como formas de vencer o medo do desconhecido. Depois de um tempo, torna-se fascinante se lan\u00e7ar nas profundezas da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>E o p\u00f4r do sol? O aviador e escritor franc\u00eas Saint-Exup\u00e9ry, autor de \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d, dizia que \u201cquando a gente est\u00e1 triste demais, adora o p\u00f4r do sol\u201d. De modo similar, o fil\u00f3sofo Schopenhauer afirmava que contemplar o fim de tarde \u00e9 como experimentar uma pequena morte. Aqui na Chapada, todavia, essa pequena morte \u00e9 contemplada com satisfa\u00e7\u00e3o. O ocaso \u00e9 melanc\u00f3lico? Sim. Mas \u00e9, sobretudo, indescritivelmente belo e acolhedor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"543\" src=\"https:\/\/blog.emporiochapadadiamantina.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/lucas-por-1024x543.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-338\" srcset=\"https:\/\/blog.emporiochapadadiamantina.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/lucas-por-980x520.png 980w, https:\/\/blog.emporiochapadadiamantina.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/lucas-por-480x255.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1024px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>A pequena morte do sol na Chapada: momento melanc\u00f3lico, mas sublime e agrad\u00e1vel \u2014 Foto: acervo pessoal.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar de todo o seu fervilhar de vida, a Chapada \u2013 pelos motivos que citei \u2013 sempre me pareceu tamb\u00e9m um lugar para pensar na morte. E ressignific\u00e1-la. Observar sua flora, seus monumentos e seus atrativos me faz integrar o fim naturalmente \u00e0 minha exist\u00eancia e, consequentemente, enxerg\u00e1-lo com mais tranquilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se morte n\u00e3o se supera, podemos pelo menos enfeit\u00e1-la para doer menos. E a Chapada tem sido esse meu ref\u00fagio agridoce.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1 entre n\u00f3s: n\u00e3o sei exatamente como funciona isso de C\u00e9u e Inferno ap\u00f3s a morte \u2013 mas o que posso dizer \u00e9 que j\u00e1 vivo no Para\u00edso h\u00e1 muito tempo. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o sobre a leveza que a regi\u00e3o nos traz para os momentos de luto Morte n\u00e3o se supera. Certa vez, enquanto produzia um v\u00eddeo para o meu canal, me deparei com essa afirma\u00e7\u00e3o. Ela veio de um grande observador das rela\u00e7\u00f5es humanas: Manoel Carlos. 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